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Clínica Metabólica de Endocrinologia e Metabologia

Clínica Metabólica de Endocrinologia e Metabologia


Entrevista : Dra Rita de Cassia Mafuz
A obesidade é considerada hoje uma doença crônica, que provoca ou acelera o desenvolvimento de muitas doenças e que causa a morte precoce. A obesidade acomete uma grande proporção de pessoas - no Brasil 40% da população adulta tem excesso de peso.
Calcula-se que 300.000 pessoas nos Estados Unidos morrem por ano precocemente devido à obesidade e no Brasil, este número está entre 50.000 e 100.000 pessoas. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, referente ao ano de 1993, cerca de 15% da população adulta do País já se encontra com sobrepeso, e 6,8% com obesidade

O que é obesidade?

. Podemos definir a obesidade como um aumento do peso corporal devido a um excesso de tecido gorduroso.A medida exata de gordura é de muito difícil obtenção. Existem várias maneiras de se avaliar quem é obeso, mas o método prático mais utilizado é o Índice de Massa Corporal (IMC), que é o peso em Kg ÷ estatura em metros, elevada ao quadrado. Exemplificando: indivíduo de 72 Kg com 1,73m, tem IMC = 72 ÷ 1,73 x 1,73; IMC = 24. Uma vez obtido o IMC, consultamos a tabela proposta pela Organização Mundial de Saúde:
 
IMC                                     Situação ponderal
< 18,5                                       magro
18,5 a 24,9                             peso normal
25,0 a 29,9                            excesso de peso
30,0 a 39,9                            obesidade
> 40                                        obesidade mórbida  (devido à grande morbidez, isto é, doenças graves relacionadas com este grau de obesidade).


Obesidade é doença?

 A obesidade é considerada uma doença crônica, de proporções epidêmicas, e um fator de risco que aumenta a probabilidade de outras doenças tais como diabetes mellitus, hipertensão arterial, acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, hipercolesterolemia, câncer, cálculo da vesícula biliar, artrite, problemas respiratórios como anéia do sono, alterações menstruais e também de morte prematura. 


Quais são as causas da obesidade?

Basicamente, a obesidade pode ser atribuída a quatro fatores: excesso de ingesta, falta de atividade física, tendência genética e problemas glandulares.
O excesso de calorias (resultante de um balanço positivo entre o que é consumido e o que é gasto) é depositado no organismo. Boa parte desse depósito se faz sob a forma de gordura e quanto mais se deposita mais obeso é o indivíduo.
Em relação à tendência, que é um fator genético, quando os pais tem peso normal, 10% dos filhos são obesos; quando um dos pais é obeso, 50% dos filhos são obesos; e quando os pais são obesos, 80% dos filhos são obesos
Quanto aos problemas glandulares, as alterações na função da glândula tireóide, supra-renais e região hipotalâmica podem ser responsáveis pela obesidade. Não são as causas mais comuns deste problema, mas devem ser sempre ser afastadas.

Dessa maneira, a pessoa se torna obesa porque:

come exageradamente e/ou gasta poucas calorias e/ou "queima" gorduras com menor facilidade.

Quais são os tipos de obesidade?

A deposição de gordura é variável de pessoa para pessoa.
Existem dois tipos básicos de distribuição de gordura e esta distribuição  é mais importante que o grau de obesidade na determinação da maioria dos riscos acima. A obesidade, quanto a sua distribuição, é dividida em andróide e ginecóide. A obesidade ginecóide, também chamada do tipo "pera" é aquela localizada mais em quadril e própria do sexo feminino. A obesidade andróide ou do tipo "maçã" é aquela própria do sexo masculino, localizada no abdomen, também chamada de visceral, sendo esta a que acarreta com maior freqüência as doenças .

A medida da cintura pode ser indicativa de risco para a saúde?

Sim. Quando maior que 80 cm nas mulheres e 90 cm nos homens, o risco para desenvolvimento de diabetes e doenças cadiovasculares aumenta significativamente.

 
Como é feito o tratamento?

Obesidade é hoje considerada doença crônica com prognóstico de qualidade de vida comprometida e, portanto, deve ser tratada.
O tratamento clássico com planejamento alimentar e incentivo à atividade física muitas vezes não funciona,pelo fato da obesidade ser uma doença crônica, e por isso temos de administrar medicamentos que auxiliam a perda de peso e a manutenção do peso atingido. Existem vários tipos de medicamentos para o tratamento da obesidade com objetivos distintos:
diminuir a fome;
aumentar a saciedade;
aumentar a queima de calorias;
diminuir a absorção de gorduras.
A escolha de um ou de outro remédio depende do perfil de cada paciente, do seu grau de obesidade, do seu hábito alimentar, das complicações que tem, e deve ser feita pelo médico.
 

Explique com mais detalhes os tratamentos:

O termo dieta deveria na realidade ser evitado, pois é sinônimo de sacrifício e transitoriedade. Mudança de hábito alimentar deveria ser o termo empregado pois é o nosso objetivo, uma vez que este novo hábito deverá ser para toda a vida. A dieta hipocalórica (poucas calorias) balanceada (com todos os nutrientes necessários) deve sempre ser a indicada, pois satisfaz as necessidades nutricionais, permite perda de meio a um quilo por semana, é econômica e de fácil preparo, se adapta ao estilo de vida de qualquer pessoa e permite a reeducação alimentar.
Tanto a atividade física programada quanto a não programada devem ser incentivadas, pois o exercício acelera a perda de peso. Um outro grande benefício do exercício é a preservação da massa muscular. Um indivíduo que faça apenas dieta, perde aproximadamente 70% de gordura e 30% de músculo. Um outro que faça dieta e exercícios perde 100% de gordura podendo até ganhar massa muscular. Um benefício adicional é a auto-estima do obeso que melhora com o exercício. A atividade física deve ser adequada para cada paciente.

 E quanto ao tratamento com medicamentos?

Existem drogas anorexígenas, que diminuem o apetite, drogas sacietógenas que aumentam a saciedade, drogas termogênicas, que aumentam o gasto calórico; e um medicamento, lançado recentemente no mercado mundial, que diminui em 30% a absorção de gorduras pelo intestino.
A prescrição de "fórmulas emagrecedoras" que contém vários anorexígenos, tranqüilizantes, hormônio da tireóide, laxantes, diuréticos, entre outros, é totalmente contraindicada. Apesar da proibição destas fórmulas e do controle da Vigilância Sanitária, elas continuam sendo utilizadas. Com o uso destas fórmulas, a perda de peso é grande. Mas junto com o peso perde-se a saúde e, no momento em que a medicação é suspensa, há uma rápida recuperação do peso fazendo com que os usuários fiquem dependentes desta medicação. Evidentemente os medicamentos ocupam um papel importante no tratamento da obesidade devendo ser empregados naqueles pacientes realmente obesos e que tenham problemas orgânicos decorrentes do seu excesso de peso.

O que ocorreu recentemente com a Sibutramina?

A sibutramina é uma droga prescrita e estudada há muitos anos. A European Medicines Agency (EMA) publicou, em 21 de janeiro deste ano, comunicado recomendando a suspensão da licença de comercialização do medicamento sibutramina, baseada na análise do seu Committee for Medicinal Products for Human Use (CHMP), que concluiu que os benefícios da sibutramina são menores do que os riscos de seus efeitos colaterais (problemas cardiovasculares graves).

A decisão foi baseada no estudo SCOUT (Sibutramine Cardiovascular Outcome Trial), cujo objetivo era, exatamente, avaliar possíveis benefícios da sibutramina no auxílio à perda de peso, em pacientes portadores de doenças cardiovasculares prévias, para quem a própria bula do produto contra-indica a prescrição.

Essa pesquisa clínica é conduzida em cerca de 10.000 pacientes, há cerca de seis anos, seguindo um protocolo aprovado em Comitês de Ética em Pesquisa de diversos países. Avaliações dos resultados preliminares indicaram que houve um aumento de 16% de risco de complicações cardiovasculares no grupo que usou sibutramina.

Dr. Ricardo Meirelles, presidente da SBEM, declarou em entrevista ao jornal O Globo que esses resultados apenas confirmam que não se deve prescrever sibutramina a pacientes com doença cardiovascular. “Os resultados são iniciais e mostram que, em pacientes com doenças cardiovasculares, os riscos da sibutramina parecem superar possíveis benefícios”. Ele acrescenta que a sibutramina é comercializada há mais de dez anos e não há, até o momento, evidências de que o seu uso criterioso, apenas em pacientes sem contra-indicações, leve ao aumento de problemas cardiovasculares.

Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), baseada no mesmo estudo,apenas determinou que a bula do medicamento alerte que não deve ser usado por pacientes com história de doença cardiovascular, incluindo  coronariopatias, acidente vascular cerebral ou isquemia transitória, arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca congestiva, doença arterial periférica e hipertensão arterial.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)  recomenda a contraindicação do uso de medicamentos à base de sibutramina para pacientes com perfil semelhante aos incluídos no estudo SCOUT.

•Pacientes que apresentem obesidade associada à existência, ou antecedentes pessoais, de doenças cardio e cerebrovasculares;
•Pacientes que apresentem Diabetes Mellitus tipo 2, com sobrepeso ou obesidade e associada a mais um fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.


Quais os tipos de tratamento cirúrgico?

Por vezes, nos casos muito graves de obesidade (IMC superior a 40 Kg/m2), ou nos casos até menos intensos (IMC igual ou superior a 35 Kg/m²), porém associados à complicações decorrentes deste excesso de peso, é necessária a intervenção cirúrgica.

Existem várias técnicas cirúrgicas, cada qual com um objetivo específico.

A mais simples é realizada por laparoscopia (são feitos pequenos orifícios na parede abdominal por onde são introduzidas "mãos mecânicas", manipuladas pelo cirurgião) e tem por objetivo colocar uma banda em volta do estômago para controlar o diâmetro do orifício de passagem do alimento, ajustada por um dispositivo colocado embaixo da pele. Nessa técnica, a perda de peso é de 10 a 20% do peso inicial.

A cirurgia maior é feita com a abertura da pele ou por laparoscopia. Nessa técnica, a maior parte do estômago é cortada, deixando uma pequena parte que se une à porção do intestino delgado chamado de jejuno. O grande estômago fica fora do circuito dos alimentos e, unido ao duodeno, é ligado também ao jejuno, mais ou menos um metro abaixo da sutura do pequeno estômago que restou. Esta cirurgia, que é a mais utilizada no mundo todo, apresenta em geral excelentes resultados e, em mãos hábeis, é bastante segura. A perda de peso é de cerca de 40% do peso original e, quase sempre, o indivíduo permanece com o mesmo peso (com pequenas variações) pelo resto da vida.

Em decorrência da perda da superfície de absorção de nutrientes pelo estômago diminuído e pelo desvio do intestino, a perda de peso é rápida, intensa e associada a déficits nutricionais importantes, os quais devem ser corrigidos e monitorizados por toda a vida.

Hábitos alimentares saudáveis, a prática regular de exrecícios físicos são fundamentais para o sucesso do tratamento à longo prazo.





Dra Rita de Cassia Mafuz

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